Há muito tempo que penso e escrevo que a atual política austeritária que os grandes da Europa e as instituições europeias têm imposto aos Estados em dificuldade do Sul só mudará no dia em que esses mesmos grandes começarem a provar do seu próprio veneno e a terem de enveredar por políticas igualmente austeritárias e recessivas. Talvez nesse dia o apelo aos valores europeus, da solidariedade, da partilha, da coesão, falem mais alto, se façam ouvir e se traduzam na adoção de medidas concretas que dêem forma e corpo a esses princípios. Mas para isso acontecer será inevitável que, antes, os ditos grandes tenham de sofrer na pele um pouco do que tem sido imposto a muitos outros Estados e povos europeus. Sem que isso signifique laxismo nas contas públicas, défices orçamentais ou aumentos exponenciais de dívida pública, mas também sem uma obediência cega à teologia dos mercados e à ditadura das finanças e dos orçamentos, antes buscando uma sábia e prudente combinação de políticas que reúnam princípios e critérios de rigor e exigência com adequadas doses de estímulo ao crescimento económico e combate ao flagelo social que é o desemprego. Sempre tendo presente que o Estado existe para as pessoas e não são estas que devem estar ao serviço do Estado. A França parece ser o primeiro a ter de se defrontar com esse problema. Segundo se noticia agora o Presidente francês depara-se com uma economia a crescer 0,3% no último trimestre, mas com o desemprego acima dos 11% e o buraco fiscal por resolver. O défice de 2013 foi de 4,3% do PIB, dois pontos acima da meta decidida por Bruxelas, e segundo as previsões da Comissão, se nada fôr feito, a diferença será ainda maior este ano. Hollande terá, por isso, pedido mais tempo para cumprir as metas do défice mas a Comissão Europeia recusou e pediu-lhe para acelerar as reformas no país. Tanto Olli Rehn como o Presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, recusaram o pedido lembrando que já tinham sido oferecidos à França dois anos para estancar o buraco fiscal. Nessa medida, por paradoxal que possa parecer, ver um grande europeu a atravessar algumas dificuldades pode não ser, necessariamente, uma má notícia para a Europa…