Conheceu-se, no final da passada semana, a decisão do governo da Islândia de retirar a sua candidatura à União Europeia, apresentada em 2010, e de fazer o referendo que tinha sido prometido pelos dois partidos eurocéticos – o Partido do Progresso e o Partido da Independência – que hoje integram o Governo de Reykjavík. Não existem muitos exemplos, na história do projeto europeu do pós-segunda guerra mundial, de um Estado denunciar interesse em aderir às Comunidades Europeias ou à União Europeia que se lhe seguiu e, posteriormente, recuar nessa intenção. Nos anos sessenta, por duas vezes (ou três, se contarmos com o que aconteceu no momento da fundação das Comunidades na década anterior) de Gaulle vetou a entrada do Reino Unido nas Comunidades Europeias, considerando-o como o “cavalo de Tróia” dos interesses norte-americanos na Europa; no início da década de setenta – e posteriormente já nos anos noventa do século passado – a Noruega viu, através de referendo, os noruegueses rejeitarem a adesão às Comunidades sendo que, da primeira vez, isso sucedeu após ter sido assinado o próprio Tratado de adesão conjuntamente com a Dinamarca, o Reino Unido e a República da Irlanda naquele que foi o primeiro dos alargamentos comunitários em 1973; finalmente, em 1992 e em 2001, os suíços, através de referendo, rejeitaram por duas vezes juntar-se ao projeto comunitário. Em todos estes casos, porém, os governos nacionais que convocaram as consultas populares tinham-se mostrado, invariavelmente, favoráveis à adesão vindo, porém, a ser derrotados pela expressão e manifestação do voto popular. O que este caso islandês nos traz de novo, todavia, é que foi o próprio governo de Reykjavík, inicialmente responsável pelo pedido de adesão, ainda que condicionado à realização de um referendo popular que a confirmasse, a recuar na própria intenção de pedir a adesão e, consequentemente, a anular o referendo prometido e anunciado. Essa é a novidade e essa novidade merece um registo e uma referência especial.
Decerto – a Islândia de hoje vale muito pouco (quer em termos económicos quer em termos demográficos) no quadro da atual Europa. Com cerca de 320.000 habitantes e um PIB per capita a rondar os 40.000USD (sensivelmente o dobro do português), muitas cidades ou capitais europeias da atualidade têm maior peso económico e demográfico do que a Islândia inteira. A decisão tomada, todavia, tem indesmentível carga e valor simbólico. E é sobre estes que nos importa refletir.
Parece inquestionável que a carga simbólica associada ao anúncio agora feito pelo governo islandês é absolutamente indissociável do momento particular de grave e acentuada crise que a União Europeia atravessa. Há anos atrás a decisão ora anunciada ter-se-ia por absolutamente improvável e a capacidade da União Europeia exercer uma atractibilidade sobre Estados terceiros manter-se-ia intacta. Pelo menos ao nível das elites governativas. Hoje, verifica-se e constata-se não ser assim.
É ao nível das próprias elites europeias e, também, das elites governativas que já radicam as maiores dúvidas e as mais fundadas reservas sobre o bem fundado do projeto europeu. Se da parte dos cidadãos e da cidadania essa desconfiança não é de hoje e já se manifestou por diversas vezes em tempos passados – muito em razão do claro défice democrático que ainda carateriza parte significativa do funcionamento institucional da União Europeia – ao nível dos governantes de turno só quem não quiser é que não se apercebe do distanciamento e desconfiança que vai grassando relativamente à União Europeia um pouco ao longo de todo o continente europeu. E essa situação é, objetivamente, perigosa. Sem prejuízo de continuarmos a entender que os processos de alargamento da União Europeia apenas deverão prosseguir depois de uma profunda reforma institucional da organização, o facto desta deixar de se apresentar como atrativa ou apelativa para quem não a integra não pode deixar de ser encarado como preocupante.
Preocupante porquanto, no atual mundo globalizado, num mundo onde verdadeiramente apenas contam os grandes espaços, a União Europeia é, por excelência e por definição, o grande espaço representativo dessa parcela do mundo que é o velho continente. Neste mundo cada vez mais integrado e globalizado, em que basicamente contam os grandes espaços, se Europa pretender ter uma palavra nos destinos do globo não pode apresentar-se dividida, fraccionada ou estilhaçada. Só uma Europa unida e institucionalmente representada, pode aspirar a ter influência e protagonismo no mundo. Dividida, desunida e pulverizada deixará de contar. E nunca será demais relembrar e recordar que, se o mundo tem os olhos postos na Europa e naquilo que a Europa lhe pode oferecer, esse mesmo mundo, lá fora, não pára à espera que a Europa resolva as suas dissensões e as suas contradições internas.
Donde, devamos olhar com a maior atenção e preocupação para esta decisão islandesa. Mais pelo seu significado simbólico que pelas suas concretas implicações económicas. Mas a política – e a política europeia em especial – nunca foi, nem pode ser, entendida à margem ou desligada duma carga simbólica que lhe é imanente. Em política, o simbolismo conta. E, neste caso, além de contar, deve obrigar a refletir e a meditar.