A recente crise na geo-politicamente sensível região do Cáucaso constituiu mais uma prova – se necessário fosse encontrá-la – do quão impreparada se encontra ainda a Europa da União para lidar com as situações controvertidas que ameaçam surgir um pouco por todo o globo. A necessidade de convocar de urgência uma Cimeira extraordinária do Conselho Europeu para discutir uma matéria que seria suposto caber na competência da presidência (francesa) de turno da União, os resultados produzidos por essa mesma Cimeira e constantes do seu comunicado final, o apagamento da figura do Alto Representante Javier Solana (uma vez mais…) no desenrolar dos acontecimentos e, até, o prudente silêncio a que se remeteu a Comissão Europeia de Durão Barroso, atestam as dificuldades de Bruxelas em concertar e executar uma posição consensual sobre uma crise que não esperava e que afecta uma das regiões estratégicas mais importantes para o abastecimento energético de uma parte substancial dos Estados membros da União. Por outro lado, o crescente alargamento em que a União Europeia mergulhou ao longo das duas últimas décadas, trouxe à tona da água a multiplicidade de interesses divergentes e não raro contraditórios que, hoje em dia, tipificam o chamado interesse comum europeu, impedindo a estruturação de uma verdadeira política externa europeia. A evidência dessa multiplicidade ficou bem expressa não só no facto – inédito nos anais da União – de cinco chefes de Estado e de governo de Estados membros haverem marchado em Tiblissi em manifestação popular de apoio a Saakashvili como, igualmente, no diferente grau de exigência e tipo de reacção que diferentes Estados membros, sobretudo os da nova Europa, mais tributários e dependentes da respectiva relação com Washington, reclamaram que fosse adoptado relativamente a Moscovo.
Por outro lado, a posição recentemente adoptada por um número importante desses mesmos Estados em matéria de reconhecimento da independência do Kosovo também criou um precedente que, longe de facilitar, complicou de sobremaneira qualquer posição que viesse a ser tomada quanto ao fundo da questão da crise que eclodiu no Cáucaso. Indo ao cerne da questão, é-se forçado a reconhecer que nenhuma razão de facto ou de direito recomenda um tratamento diferenciado para a secessão da Ossétia do Sul em relação à Geórgia ou para a secessão do Kosovo relativamente à Sérvia. E a coerência – que é um valor que nem sempre está presente nas relações internacionais – obrigará a reconhecer que a postura Ocidental face ao Kosovo não deve ter sido alheia ao eclodir da conflitualidade no Cáucaso – a Geórgia desencadeou o conflito apressando-se a colocar um ponto final na ameaça secessionista e é impossível a Ossétia do Sul (e talvez também a Abkázia) não terem encarado a tergiversação ocidental face à integridade territorial da Sérvia como um convite ao aprofundamento da sua aspiração independentista. Incongruência, de resto, que, em sentido contrário, não deixou de ficar evidente na posição assumida por Moscovo – ao não reconhecer a independência do Kosovo mas ao fazê-lo relativamente às regiões secessionistas da Geórgia, Medved evidenciou que também de dois pesos e de duas medidas se fazem as relações internacionais modernas, ao mesmo tempo que deixava bem claros os fundamentos da nova política externa russa que, pelos vistos, na tradição da melhor escola soviética, não dispensa o seu cordão sanitário e de segurança feito de muitas das repúblicas outrora soviéticas a quem o novo poder russo não reconhece a necessária e suficiente autodeterminação para definirem os seus rumos políticos.
No cruzamento de todos estes interesses contraditórios e de aspirações potencialmente conflituantes poder-se-á encontrar o fundamento para mais uma (falta de) reacção europeia à crise que desta feita eclodiu no Cáucaso.
E se há ilações que a mesma crise nos permite retirar com razoável dose de certeza e de segurança, elas apontam no sentido de reconhecer que, (i) face aos instrumentos legais de que actualmente dispõe, a Europa da União não pode ambicionar a ter uma efectiva palavra no mundo em situações controvertidas e de crise, o que reclama com urgência renovada a aprovação de novas regras tais como as que se apresentam no Tratado de Lisboa ou em documento similar que vier a ser aprovado; e que (ii) nessas mesmas situações, sobretudo nas que se localizem na Europa, a Europa e o mundo têm que voltar a contar com o papel e o interesse estratégico de uma nova Rússia, cada vez mais oligárquica e cada vez menos democrática.